Guggo Rachwal tem 38 anos, é graduado em Comunicação Visual, pela UFPR. Ilustrador, Cartunista, Roteirista e Diretor de Desenhos animados. Escritor de Livros Infanto-juvenis. Diretor de uma Agência de Publicidade.

1) Como foram os seus primeiros passos como escritor/ escritora? Conta para nós sobre o início de sua carreira?

Desde que me lembro por gente, sempre desenhei e inventei histórias e personagens. Na escola, fazia caricaturas dos professores e recebia bilhetes para meus pais comparecerem ao colégio, pois eu me ocupava de assuntos estranhos as aulas, dizia um dos bilhetes. Por volta dos 18 anos, com as primeiras histórias prontas, iniciei uma série de contatos com várias editoras, mas nunca tive sequer uma resposta. Muitos anos mais tarde, por iniciativa própria, publiquei meus livros. Descobri que no Brasil é ainda mais difícil distribuir e vender livros do que produzi-los. O modelo de negócios editorial é fechado e perverso, não dando oportunidades para autores desconhecidos. Mesmo assim há um universo de obras fantásticas circulando em pequenas quantidades pelo esforço heroico de seus próprios autores apaixonados pelo que fazem. O Coletivo Era Uma Vez, de autores de Curitiba, é uma amostra do empenho e dedicação que os escritores e ilustradores de livros infantis têm para levar suas obras ao público. Um esforço grande que é recompensado ao vermos os pequenos leitores se envolvendo com nossos livros e demonstrando prazer com a leitura. Esse é o alimento da alma do autor.

2) Na sua infância, como foi o seu contato inicial com a literatura? Qual estória, livro ou gibi que mais te marcou quando pequeno/pequena?

O encantamento inicial foi através de contações de histórias e desenhos feitos pelos pais e tias, depois pela leitura dos gibis. Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey e Pateta e também Cebolinha, Mônica e sua turma. A Revista Recreio com as histórias da Ana Maria Machado e o livro «O Sapo e o Ouriço» são experiências com a literatura que ficaram na minha memória.

3) Qual é o estilo de estórias que mais te prende em um livro? O seu gênero literário favorito.

Todos os gêneros têm seus encantos e eu diria que a obra mais envolvente é a que trabalha com a exploração de diversos deles. Aventura e mistério. Literatura fantástica. Comédia. Drama. São alguns dos gêneros que me prendem.

4) Como você tem percebido o perfil da geração atual de leitores, suas preferências e hábitos?

Infelizmente o Brasil tem uma divisão social bem acentuada e a questão do acesso aos livros e a inclusão digital devem ser observadas sob pontos de vista opostos. Os pequenos das classes favorecidas economicamente têm os celulares, tablets e computadores à disposição e os encantos digitais são muitos. Games, Redes Sociais, Streams e Canais do Youtube desviam essa criançada da leitura. Os e-books interativos seriam uma boa alternativa para a literatura conquistar espaço nesse mundo de maravilhas tecnológicas. Porém o modelo tradicional de negócio editorial não vê um retorno a curto prazo nessa área e ela fica por conta, de novo, dos próprios autores apaixonados. E com a agravante de que as tecnologias de produção do livro interativo são ainda caras e pouco acessíveis.

Para o público das classes mais pobres, o acesso ao livro já é bem reduzido e os títulos paradidáticos que lhes é acessível, na maioria das vezes é de qualidade duvidosa. Os pais mal conseguem comprar o material didático básico, então os livros de literatura infantil acabam sendo um artigo de luxo. O acesso da maioria das nossas crianças aos meios digitais é bem reduzido de modo que a alternativa de livros interativos, que poderiam ser mais acessíveis, para esse público é inviável. Em contato com crianças da rede pública constatei uma carência enorme por literatura infantil e um interesse maior ainda, por parte delas, na leitura e no mundo literário.

5) Para você, qual é o papel do espaço escolar e das bibliotecas na formação de cidadãos, leitores e possíveis futuros escritores e escritoras?

A escola tem papel decisivo na formação de leitores e precisa adotar estratégias atraentes para proporcionar experiências prazerosas com a literatura. As bibliotecas precisam ser mais atuantes e exibidas. Por mais que muitas bibliotecas tenham projetos e ações extraordinários, isso ainda fica restrito a pequenos círculos fechados. A integração entre escolas e bibliotecas deveria ser exigida nos planos nacionais de educação.

Competir com as mídias digitais nas classes mais abonadas e dar acesso básico à literatura nas classes mais humildes é uma faca de dois gumes. A educação precisa enfrentar uma revolução que tenha como objetivo diminuir as diferenças de acesso à cultura. O mundo não comporta mais a ideologia da classe dominante. É insustentável.

Precisamos de um mundo onde todas as famílias criem suas crianças com a leitura fazendo parte de sua cesta básica. Quando tivermos bons leitores, os escritores se auto-revelarão.

6) Qual é o recado que você daria para jovens que se interessam pela escrita literária e tem vontade de entrar nesse ramo?

Ler muito é o primeiro requisito para se desenvolver a escrita. Isso nos dá bagagem cultural e visão da variedade de estilos possíveis. Ler amplia a visão de mundo. Escrever e criar histórias é um exercício de paciência e deve-se persistir em busca da evolução dos textos e das ideias. Criar, recriar, trocar ideias com outros escritores, professores, amigos. Hoje em dia, bem ou mal, já há uma revolução em curso no mundo editorial. Antes de nos sujeitarmos aos inúmeros nãos que as editoras têm a nos oferecer, podemos fazer experiências e submeter nossos textos à opinião pública, através das diversas plataformas de auto-publicação disponíveis no mercado. Se você é apaixonado pela escrita ou outra arte, mantenha-se em produção e envolva-se com os profissionais do meio e grupos afins. Procure todos que estiverem ao seu alcance e seja persistente.